A face que ninguém ousa ver

Foto: Alexander Popadin / Pexels
Alguns segredos foram trancados por um motivo e não deveriam ser libertados.
A lenda do sótão
A chuva castigava o telhado da velha mansão, transformando o silêncio da madrugada em um ruído constante e opressor. Ali, reunidos sob a luz fraca de uma vela, Lucas, Clara e Pedro reviravam caixas empoeiradas no sótão.
Foi entre páginas amareladas que Pedro encontrou um diário de capa de couro roído por traças. Ao folhear as anotações, seus olhos se arregalaram ao ler sobre um habitante secreto que vivia entre as paredes, mantendo o rosto oculto por uma máscara de ferro para não espantar a luz.
Nós não estamos sozinhos aqui, sussurrou Pedro, a voz tremendo levemente enquanto a luz da chama dançava nas sombras. Lucas riu, embora suas mãos estivessem úmidas de suor, e guardou o diário no bolso, recusando-se a acreditar naquelas palavras antigas.
O som do metal
O riso de Lucas morreu quando um som metálico, agudo e arrastado, ecoou do outro lado da parede de madeira. Parecia o atrito de correntes enferrujadas contra o assoalho, um ritmo lento e calculado que parecia perseguir seus próprios batimentos cardíacos.
A tempestade lá fora parecia se intensificar, mas o barulho dentro da casa era diferente. Não era o vento, nem o rangido das tábuas velhas, mas algo que carregava intenção.
Clara colou o ouvido na parede e sentiu um frio gélido percorrer sua espinha. Alguém ou algo estava caminhando no espaço entre o teto e o sótão, arrastando um peso que soava como metal batendo em metal a cada passo dado no escuro.
O encontro inesperado
A curiosidade, alimentada por um medo paralisante, venceu a prudência. Armados com a lanterna do celular e um pedaço de madeira, os três subiram a escada carcomida que levava ao cômodo trancado no andar superior, o lugar de onde o som emanava.
Lucas forçou a porta. A fechadura cedeu com um gemido lastimoso, revelando um quarto pequeno e circular, forrado de espelhos quebrados. No centro, sentado em um banco de pedra, uma figura imóvel vestia uma túnica surrada e uma máscara de ferro que cobria inteiramente o rosto.
O homem não se moveu. O silêncio no quarto era absoluto, exceto pela respiração ofegante dos três jovens que se aproximavam, atraídos pelo magnetismo daquela figura grotesca.
A revelação
Pedro, movido por um impulso irracional, estendeu a mão e agarrou a borda metálica da máscara. O metal estava absurdamente frio, quase queimando a pele ao toque, e o rosto por trás da estrutura de ferro parecia vibrar como se tentasse se soltar de uma âncora.
Com um puxão firme, a máscara cedeu e caiu no chão com um baque surdo, ecoando pelo cômodo. Eles esperavam encontrar uma cicatriz, um monstro ou talvez um idoso esquecido pelo tempo.
No entanto, não havia carne, nem olhos, nem pele. Atrás da máscara de ferro, existia apenas um vazio pulsante, uma espiral de luz negra que sugava a própria claridade do quarto, revelando que a máscara era a única coisa que mantinha aquela essência contida.
O despertar
O horror tomou conta deles quando o vazio no rosto da criatura começou a se expandir, transformando a figura em um redemoinho de sombras. As paredes da casa começaram a se dobrar como papel, e o chão abaixo deles se dissolveu em um mar de engrenagens invisíveis.
Lucas sentiu seu corpo ser puxado para o centro daquela escuridão. O mascarado não era um invasor, mas um guardião cujo único propósito era selar uma ruptura no tecido da realidade que a casa, estrategicamente posicionada, encobria.
Ao remover a máscara, eles haviam quebrado o selo. Enquanto a casa se dobrava em um ciclo infinito de reconstrução e colapso, Pedro percebeu que a máscara flutuava de volta para suas mãos, esperando que um deles a vestisse para assumir o papel daquele que, por gerações, nunca pôde olhar para trás.
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